segunda-feira, 24 de julho de 2017

Trecho da poesia "Diagnóstico"

queimação 
na garganta
um frio 
na barriga
um aperto
no peito

se não for refluxo
pode ser amor

                         Márcia Knop

(Trecho da poesia "Diagnóstico", do livro Coração de astronauta.)

Para saber mais sobre o livro Coração de astronauta, consulte:

Como surgiu o livro Coração de astronauta?
Minibiografia da autora
Coração de astronauta


terça-feira, 18 de julho de 2017

Viva o Relâmpago McQueen!

“Sou mais do que rápido, mais do que veloz, eu sou a velocidade!” – essa é a frase que o Relâmpago McQueen repete para si mesmo antes de uma corrida. Um mantra para concentrar, motivar e manter a autoestima.

Que me desculpem todos os críticos da sequência Carros (e não tiro a pertinência das críticas), mas acabo de virar fã do fenômeno McQueen! E o motivo é nobre, pelo menos para mim. Já me explico: hoje, eu e meu filhote de 5 anos fomos ver Carros 3 e, pela primeira vez, ele assistiu a uma sessão de cinema do início ao fim, sem dormir e quase sem reclamar! Uma salva de palmas, por favor!

Quem conhece Gabriel, meu filho, sabe – ele nasceu engenheiro! Desde muito cedo, é vidrado em veículos de todos os tipos, e não é só isso. Gosta de ver o motor, as engrenagens, as correntes, as hélices, repara em tudo. Aos 2 anos, nos pediu de presente um caminhão betoneira; assim com essas palavras. Ele sabe os subtipos dos veículos, exemplo: caminhão betoneira, caçamba, tanque, truck, carreta baú... Sua cor preferida é, desde sempre, vermelho – não à toa é essa a cor do Relâmpago McQueen!

O mais engraçado: tanto eu quanto o papai somos da área de Humanas; nada entendemos desse universo motorizado, nem somos (ou nem éramos) minimamente encantados por ele. Mas Biel está despertando a nossa curiosidade, a minha principalmente. Crescida num meio em que os gêneros feminino e masculino tinham (ainda têm) papéis/gostos bem delimitados, não nego que esse universo me soa bastante masculino.

Coincidência ou não, apesar de rotulado por uns de genérico e superficial, Carros 3 traz, nas entrelinhas, essa reflexão sobre os gêneros, além de outras fundamentais: o quanto a autoestima é decisiva na vida, os limites da tecnologia, conflitos de gerações. Te pareceu raso?! A mim, não! Mas confesso, minha opinião sobre o filme é totalmente enviesada, como deixei bem claro no início desse post! Pois, quem sabe, eu deva a Carros 3 o gosto pelo cinema despertado em meu filho. Ainda é cedo para saber...

O melhor de tudo: embora eu nunca diga diretamente que quero que ele curta cinema (até para o efeito não ser exatamente o oposto), creio que criança sente... Então, terminada a sessão, enquanto caminhávamos em direção à saída, ele me olhou e disse: “mãe, eu consegui, tá vendo?!”. Como se soubesse que vê-lo assistir a uma sessão completa fosse, de alguma forma, importante para mim e motivo de orgulho. O que mostra que ele não é só um garoto “veloz e furioso”, mas cheio de ternura! 💗

sábado, 8 de julho de 2017

Como surgiu o livro "Coração de astronauta"?

Para contar como surgiu Coração de astronauta, vou fazer uma digressão e falar dos primórdios de tudo. Nem todos sabem que, em 2009, lancei meu primeiro livro de poesias, chamado Conta outra. Com 38 poemas, eu deixava registradas experiências vividas ou testemunhadas no início da minha vida adulta. Assim, as poesias fazem referência a lugares em que morei e a então recente vida a dois, além de reflexões sobre o tempo, a liberdade, a minha própria personalidade, entre outras coisas. Ali, também, dei início à criação de um estilo de fazer poesia, optando por utilizar versos livres e sem rimas, uma linguagem informal e não rebuscada. Vale a pena ler o comentário sobre o livro feito pela tradutora e professora Beatriz Viégas-Faria.

Agora, cerca de oito anos depois do meu debut literário, estou prestes a lançar o segundo livro, Coração de astronauta. Dessa vez, são 35 poemas que dão continuidade a esse exercício de artesania textual e, a meu ver, reforça e aprimora o estilo de poesia que escolhi fazer. Via de regra, utilizo versos curtos, livres e sem rimas. Quase sempre, a pontuação é propositalmente suspensa. A poesia de abertura do livro fala da minha visão sobre o próprio fazer poético, preparando o leitor para o que virá nas próximas páginas. Dali para frente, as poesias tratarão de temas diversos, mas boa parte delas carrega a palavra coração, seja de forma explícita, seja nas entrelinhas. O título, portanto, faz jus a essa onipresença! E por que é um coração de astronauta? Uma pista, talvez, seja ler a poesia intitulada O amor entre dois astronautas, presente no livro. Aí, vocês vão ter que esperar o livro sair! 

A propósito, o título do livro foi “presente” de um amigo. Eu já estava com o livro bem adiantado, mas nenhum título me ocorria. Decidi, então, mostrá-lo para um velho parceiro de empreitadas tradutórias/literárias para que ele me sugerisse algo. Qual não foi a minha surpresa ao receber, na velocidade da luz, três sugestões de título! Aí ficou fácil! 

Enfim, não vejo a hora de poder compartilhar com vocês meu Coração de astronauta e a gente comungar via poesia! Quase lá!

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Um trechinho de "Coração de astronauta".





Carta de agradecimento a Lee Hyun-seung!

Caro sr. Lee Hyun-seung,

Eu não entendo sequer uma palavra da sua língua, e o senhor, provavelmente, não deve entender português; o que torna essa carta um desperdício! Eu poderia te escrever em língua internacional, mas sou daquelas que acha difícil revelar o interior numa língua que não seja a materna. Então, vai assim mesmo.

Assisti a um de seus filmes já faz uns dias, uns dez dias, talvez. E, desde então, fiquei embriagada por aquilo! Como pode o senhor, do outro lado do globo terrestre, saber como fisgar uma espectadora tão distante? Vai ver é porque, em se tratando de sentimentos, as distâncias e as diferenças entre culturas e sociedades pouco importam. As emoções são nômades e apátridas.

Saiba que não seria nenhum esforço ver o seu filme sem som nenhum, só para olhar todas as cores que o céu assume cada vez que o senhor filma aquela casa no lago. Na verdade, toda vez que aparecia um desses céus, eu rebobinava o filme só para admirar a paisagem.

E suas associações imagem/som são ótimas! Adoro quando aquelas luzes acesas na árvore “cantam”, só para citar um exemplo entre tantos outros. Adoro a falta de pressa em contar a história, a falta de pressa de Eun-joo em se envolver em uma nova história. Adoro as atuações comedidas das personagens principais. Eun-joo não faz cenas pungentes de drama, mas em nenhum momento duvidamos que aquela alma está aflita. Idem para Sung-hyun. Adoro a economia de palavras e de diálogos amorosos; não há declarações rasgadas de amor. Há silêncios e não-ditos, deixados ao bel-prazer do espectador. Adoro a brincadeira com os paradoxos temporais sem muita explicação, até porque não compromete a história e nem interessa mesmo.

Soube que o filme ganhou até versão americanizada. Mas não vi, nem pretendo ver. Algo me diz que o original é hors concours.

Acho que o senhor já percebeu que adoro tudo em Il Mare! E a única coisa que lamento é não ter descoberto esse filme antes. Mas, talvez, não estivesse preparada para toda a sua beleza em momento anterior. Que bom encontrar esse filme agora! E que pena já ter que me despedir dele! Sabe o que é? Receio daquilo que, às vezes, acontece quando a gente resolve reler um livro ou rever um filme que foi marcante em dado momento da vida. Por n motivos, o efeito se dissipa com o tempo, e o livro/filme já não causa o mesmo impacto. Entenda: quero guardar para sempre a alegria de ter assistido seu filme pela primeira vez!

Algo que resuma Il Mare? É poesia travestida de cinema!

Por fim, para ser coerente com o propósito dessa carta e com o título desse post:

Kamsahamnida, sr. Lee Hyun-seung! (Agora sei pelo menos uma palavra em sua língua!)

É balé, é magia, é a arte do mínimo!





No último dia 31 de maio, fiz algo que há muito tempo não fazia – fui ao teatro para assistir a um espetáculo de balé clássico. A companhia foi a Moscow State Ballet, que apresentou o balé de repertório “O Quebra-nozes”, sob direção de Liudmilla Titova. Embora seja ‘famosérrimo’, esclareço para aqueles que não conhecem o universo bailarinístico, que a composição musical desse balé é de Tchaicovsky e a história é inspirada no conto de Hoffmann, “O Quebra-nozes e o Rei dos camundongos”.

O conto se passa na noite de Natal e, de forma resumida, trata-se da história da menina Clara que ganha de seu padrinho um quebra-nozes em formato de boneco. À noite, Clara acaba tendo um sonho, em que o quebra-nozes ganha vida e os dois encaram grandes aventuras numa terra mágica, de reinos e criaturas encantadas. Quer mais clássico que isso?! Ah, sim, no final, ao acordar, Clara é apresentada ao sobrinho do seu padrinho e descobre que ele é a versão em forma de príncipe do quebra-nozes de seu sonho. E eles são felizes para sempre!

Pois bem, avançando no post, “O Quebra-nozes” é o que se chama de um balé de pantomima, ou seja, um balé teatral que faz uso de gestos e mímicas. Considero o primeiro ato do espetáculo bem teatral mesmo. Já o segundo, é um pouco menos. Sobre a apresentação específica do Moscow State Ballet, foi mágica, como é todo o balé, ainda mais para quem não assistia a um espetáculo há muito tempo! 

Porém, entretanto, contudo, todavia, para quem já assistiu ao Bolshoi e ao Kirov, nada se compara! Sim, eu sou devota de santa Alexandrova e de santo Baryshnikov! Se eu tivesse um altar na minha casa, seria no formato do teatro Bolshoi! Essa galera não é meramente humana, eles são divinamente humanos!

Mas voltando ao Moscow State Ballet, claro que os bailarinos têm técnica, são bons e expressivos. Mas conforme já disseram em algum lugar: o balé é a arte do mínimo, dos mínimos detalhes; uma ponta mais alongada, um quadril mais encaixado, uma primeira posição mais aberta, uma pirueta perfeitamente equilibrada, uma postura correta, o peito aberto, os ombros para baixo, os cotovelos para cima, os braços moldando a cena, os rostos expressivos, etc etc etc até o infinito, e mais uma alma que se deixa embalar pela música, estampando no palco a paixão de quem dança e um coração que bombeia sangue, ritmo e movimento! E os pés sofrem, o corpo dói, tudo dói! 

Tudo isso para dizer que, em se tratando de mínimos, há o que se melhorar na companhia em questão. Sentei bem na frente, próxima ao palco, e achei que os bailarinos iniciaram o espetáculo deixando transparecer, um pouquinho além da conta, a tensão e o nervosismo. Também é verdade que a tensão foi se dissipando à medida que o espetáculo avançava. Algumas vezes fiquei com a impressão de que eles tiveram que fazer uma marcação de palco diferente da que estavam acostumados. Creio que eles devem dançar em palcos maiores, porque, principalmente no primeiro ato, parecia haver muito bailarino para pouco palco. Sobre o casal principal de bailarinos, que interpretaram Clara e o Quebra-nozes, nomeadamente Elizaveta Barkalova e Sergey Skvortsovdez, a sintonia era boa, os mínimos é que poderiam ser melhorados, um pouco mais de confiança, talvez.

Mas isso é só papo de tia chata, que só porque conheceu a perfeição bailarinística de perto (digo, as companhias Kirov e Bolshoi), ficou assim custosa! Eu mesma já não sou mais capaz de fazer nem 10% do que se fez ali. Durante quase toda a adolescência, fiz balé e jazz, parei aos 18, e hoje tenho o dobro disso. Já contei 11 calos nos meus pezinhos na época da sapatilha de ponta... ui! Mas bailarina não chora! Levanta, sacode a poeira e faz um grand jeté!

Enfim, só queria dizer que ontem foi lindo! E sempre será! Enquanto assistia ao balé, boas memórias vieram à tona: os espetáculos e as companhias que já tive o privilégio de assistir no palco do famoso TCA (Teatro Castro Alves), em Salvador. Lembro até do cheiro do teatro... O tempo passou, as responsabilidades chegaram, veio filho e o tempo para o lazer que já não era tanto, minou! Mas quem já nasceu mordido pela dança, não larga o osso! É impossível ouvir Tchaikovsky, Minkus, Adam e não surgir imediatamente na minha cabeça a imagem de uma bailarina dançando! É impossível ouvir um piano e não relembrar os movimentos das aulas, a barra, as diagonais, os saltos.

Acabo de tomar uma resolução: vou voltar a fazer aulas de balé! 

Saudações bailarinísticas!


Trecho da poesia "Diagnóstico"

queimação  na garganta um frio  na barriga um aperto no peito se não for refluxo pode ser amor                         ...